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Por Arthur Soffiati

A humanidade e as pandemias

29.09.2020

Durante cerca de um milhão de anos, as sociedades dos hominídeos viveram da coleta, da pesca e da caça. O nomadismo era a norma. Deslocar-se em busca do alimento. Essa mobilidade contribuía para evitar-se as doenças infecciosas, causadas por microrganismos. Elas ocorriam, mas não eram endêmicas. Morria-se mais por acidente, ataque de animais e guerra. Com a sedentarização de algumas sociedades, a partir de dez mil anos passados, tudo mudou. A agricultura passou a produzir alimentos em parte guardados para períodos de escassez. Estocados, eles atraíam roedores que, normalmente transportavam vírus e bactérias. Insetos picavam os animais e picavam os humanos, transmitindo-lhes doenças muitas vezes mortais.

            A peste bubônica, transmitida pela bactéria Yersinia pestis, e outras doenças infecciosas eram muito comuns. Com a emergência das primeiras civilizações e das cidades, as doenças se tornaram mais frequentes. Sua propagação se tornava mais fácil pelo sedentarismo, pela aglomeração e pelo deslocamento de pessoas. As condições de higiene eram precárias. Não havia coleta e tratamento de esgoto e de lixo. Daí a frequência das epidemias. Como não se conheciam os agentes das doenças e os processos de transmissão e de tratamento, normalmente as mortes provocavam reduções drásticas de população. As doenças transmissíveis eram vistas como parte integrante da vida cotidiana. Elas eram creditadas a deuses, espíritos e demônios, e não a agentes naturais e a desequilíbrios ambientais. Quando muito, as doenças podiam ser atribuídas à água e ao ar pestilentos.

            Inscrições em pedra, argila e pergaminho registraram, de forma nem sempre clara, a ocorrência de surtos epidêmicos na Mesopotâmica, no Egito, em Israel, na Índia, na China etc. A mais conhecida epidemia das civilizações pré-ocidentais foi a de Atenas, quase certamente um surto de peste bubônica, que matou muitos habitantes da cidade, inclusive Péricles, o grande representante da democracia. Nenhuma ganhou caráter pandêmico porque as sociedades ou não tinham contato ou mantinham contatos superficiais e esporádicos. A menos que se entenda como pandemia um surto que atingisse o mundo conhecido na época.

            A rigor, a primeira pandemia ocorreu no século VI d. C. e perdurou até meados do século VIII em ciclos epidêmicos. Ela recebeu o nome de Peste Justianiana por ter sido melhor registrada, sobretudo para os ocidentais, no reinado de Justianiano, imperador romano (c. 482 -565). O império estava praticamente restrito à Turquia. A doença veio da África oriental, chegou ao Egito em 540 e se espalhou pelos portos do mar Mediterrâneo. Deles, atingiu o Império Romano do Oriente, alcançando a Europa ocidental, o norte da África e o Império Sassânida, com centro na Pérsia e compreendendo o Iraque, parte do Paquistão, todo o oriente médio e parte da Turquia. Paulo Diácono, no século VIII d. C., registrou: “as cidades foram despovoadas, os campos se esvaziaram e as habitações humanas se tornaram retiros para animais selvagens. ” Paralelamente, o mundo romano, ou o que restara dele, estava sob pressão de povos considerados bárbaros.

Mosaico do século VI do imperador Justiniano e sua corte na Basílica de San Vital em Ravena

A segunda pandemia foi a conhecida Peste Negra, que atingiu a Europa em 1347-1350, vinda da Ásia central e se alastrando pela Ásia menor, Índia, oriente médio, Egito, Arábia e norte da África. Ela se perpetuou em ciclos epidêmicos até início do século XV. Esta pandemia é mais conhecida hoje. Na época, era vista como fruto de miasmas, contaminação pelo contato direto ou indireto de pessoas, castigo de Deus, praga de judeus ou de feiticeiras. Na verdade, ela foi precedida por uma grande fome, que varreu a Europa entre 1316 e1320. Creditemos-lhe também as precárias condições sanitárias. As cidades, na fase de formação do ocidente (muito conhecida como Idade Média), eram poluídas por esgoto e lixo. Os ratos eram tão comuns e familiares que não eram mencionados nas crônicas, assim como o bicho-de-pé no Brasil durante muito tempo. Só se tem mais conhecimento das infestações causadas por ele através dos escritos deixados pelos naturalistas e viajantes europeus em virtude de eles terem eles sido inclementemente atacados por essa espécie de pulga.

Estima-se que a Peste Negra tenha matado entre 30% a 60% da população europeia.  Podemos supor que 100 milhões de pessoas sucumbiram diante da pandemia. A população mundial devia girar em torno de 475 milhões. Ela deve ter caído para 375 milhões no século XIV. Para recuperar-se do baque, a Europa levou cerca de 200 anos. A peste retornou várias vezes em surtos epidêmicos localizados. Por esse prisma, a Peste Negra do século XIV foi a mais letal pandemia da história. A pandemia causada pelo novo corona vírus da atualidade matou menos de um milhão até o fim de agosto de 2020 numa população mundial de nove bilhões.

Depois da Peste de Londres, em 1665-66, haverá ainda uma terceira pandemia desta doença, muito pouco conhecida pelo público leigo, e duas pandemias viróticas, além de pandemias potenciais que foram contidas.

Médicos usavam máscaras com bico de pássaro durante a peste bubônica

Enquanto a maioria das pessoas conhece, ainda que superficialmente, a Peste Negra e sua devastação na Europa, poucos ouviram ou leram sobre a Peste Justiniana ou sobre a Terceira Pandemia de peste bubônica, no século XIX. Esta começou na fronteira do Tibete com a China e se espalhou lentamente até Hong Kong, onde chegou em 1894, e daí se alastrou para todos os portos do mundo pelos navios a vapor. A pandemia atingiu principalmente Índia e China, Austrália, Escócia, Brasil, EUA. Nestes dois últimos países, os surtos foram locais e logo contidos.

Supõe-se que a origem dela se localize na província chinesa de Yunnan, começando em 1855. A disseminação das doenças transmissíveis ainda era lenta nessa época. O agente de transmissão viajava de navio para alcançar o mundo. Curiosamente, a Terceira Pandemia não entrou na Europa. Ressalte-se que os tempos eram outros. Pasteur já havia descoberto os micróbios. Entre aqueles que estudaram com ele, estava o cientista franco-suíço Alexander Yersin, que identificou a bactéria causadora da Peste Negra em Hong-Kong no ano de 1894. Em sua homenagem, ela recebeu o nome científico de Yersinia pestis. Os responsáveis por uma doença que matou tantas pessoas e exerceu imenso terror não eram mais os judeus, as feiticeiras, os gatos etc. Era um ser vivo microscópico.

Definiu-se o tripé em que se sustentava a peste bubônica: bacilo causador, rato preto hospedeiro e pulga vetor. Como os ratos e outros roedores também morriam, entendeu-se que a alta mortalidade deles obrigava as pulgas a buscarem novos corpos para se alimentarem, passando a picar pessoas e animais domésticos. Matar ratos para combater a doença liberava as pulgas para atacarem humanos mais rapidamente. As pesquisas mostraram que a bactéria causadora inibe seletivamente a resposta imune inata, que é a primeira linha de defesa do organismo. Algo como um ladrão desligando o controle de alarme de uma casa para melhor trabalhar.

Seguindo de perto os livros O enigma da Peste Negra, de Fernando Portela Câmara (Rio de Janeiro: E-papers, 2015), e A história e suas epidemias, de Stefan Cunha Ujvari (Rio de Janeiro/São Paulo: Senac, 2003), assustamo-nos com a forma implacável de morte causada pela bactéria. “O hálito, os vômitos, as fezes e a urina desses doentes têm um odor intensamente pútrido. É frequente, nesses casos, a gangrena de extremidades (dedos dos pés e das mãos, podendo se estender, algumas vezes, para os testículos e a ponta do nariz) e órgãos internos (baço, fígado, pulmões, ponta do coração, rins, intestinos)”. Assim Câmara resume suas manifestações.

Contribuíram para a disseminação da peste a guerra civil chinesa e a construção de ferroviais nas planícies geladas da Manchúria até a Rússia. Houve perturbação na ecologia dos gerbilos (ratos-do-deserto) e marmotas, intensificando seu contato com populações de trabalhadores, militares e refugiados. A exportação de peles de marmota a partir de 1908 também contribuiu para a propagação da doença. Em 1910, caçadores mongóis e membros da tribo Buriat perceberam uma mortandade de marmotas no campo e fugiram. Era uma forma pragmática antiga de detectar a epidemia.

Alexandre Yersin em frente à cabana em Hong Kong onde isolou a bactéria da peste, em 1894

Existe uma corrente de pesquisadores que associa os surtos de peste bubônica a mudanças climáticas. Ocorreu um resfriamento natural no século VI d.C., provocando um colapso na agricultura e atingindo o império romano em cheio. Na mesma época, ocorre a Peste Justiniana. Da mesma forma, houve um forte resfriamento natural no século XIV, depois de um breve aquecimento global natural. Ao mesmo tempo, alastrou-se a Peste Negra. A forte explosão do vulcão Krakatoa, na Indonésia, em 1887-8, não apenas detonou completamente a ilha em que se situava, como a poeira lançada na atmosfera envolveu o mundo todo e bloqueou parcialmente a radiação solar. Com isso, ocorreu um resfriamento natural que deve ter contribuído para a pandemia.

Desde a revolução industrial do final do século XVIII, emanações gasosas, principalmente de gás carbônico, estão mudando a composição da atmosfera. Atualmente, as mudanças climáticas produzidas por atividades humanas tornam-se cada vez mais acentuadas. Tempestades devastadores, secas inclementes, ventos fortes, aumento da temperatura média global podem contribuir para novas ondas epidêmicas e pandêmicas. As epidemias de peste bubônica costumavam acontecer depois de chuvas intensas que causavam o crescimento da vegetação consumida por roedores. Já se pode estabelecer uma relação entre chuvas intensas e a propagação da dengue, da malária e de outras doenças transmitidas por vetores.

Sendo causada por uma bactéria, a peste bubônica pode atualmente ser combatida com antibióticos. Mas o tratamento deve começar logo aos primeiros sinais, pois ela progride em poucos dias, levando à morte.

De maneira mordaz, o historiador canado-estadunidense William Hardy McNeill escreveu num de seus livros: “Se olharmos o mundo do ponto de vista de um patógeno faminto... ele é hoje um magnífico pasto para bilhões de corpos humanos... que dobra em número a cada 20 a 27 anos, um maravilhoso alvo para qualquer patógeno que possa se adaptar para melhor nos invadir.” Ainda hoje, depois de tantos avanços científicos, vírus, bactérias, protozoários, fungos, vermes e outros parasitas são vistos como algum tipo de maldição solta para atacar a humanidade. Geralmente, os acusados pela maldição nada têm a ver com as epidemias e pandemias.

Se examinamos muito rapidamente as três pandemias de peste bubônica, concluímos agora com as pandemias da gripe espanhola e da covid-19. Até aqui, lidamos com doenças infecciosas e transmissíveis causadas pela bactéria Yersinia pestis. Bactéria é um ser vivo unicelular com estrutura celular e genoma completo sem mitocôndrias individualizadas nem núcleo diferenciado. Realiza metabolismo energético e funções genético-reprodutivas próprios.

A gripe espanhola e a covid-19 foram provocadas por vírus, que são genes encapsulados em contêiner proteico, algumas vezes envolvidos por membrana. Estão codificados em DNA ou RNA e dependem de células para produzir réplicas. Não têm metabolismo energético nem sintetizam por si mesmos suas moléculas.

Por mais detestáveis que sejam os microrganismos causadores de doenças, é preciso considerar que a vida depende fundamentalmente desses seres invisíveis. As bactérias construíram a atmosfera favorável aos grandes animais, inclusive humanos, e devem sobrevier a uma possível extinção de todos os seres pluricelulares.

Fernando Portela Câmara escreve: “A cada conquista sobre o meio ambiente que nos permite viver melhor e mais confortavelmente, criamos vulnerabilidades que poderão nos trazer grandes catástrofes. Ao criarmos diques contra as doenças infecciosas, com antibióticos, vacinas, medidas sanitárias etc., estamos represando patógenos na esperança de controlá-los, mas desconhecemos a pressão de mutações que surgem, criando novas adaptações imprevisíveis e novos canais epidemiológicos.”

Na quarta pandemia, entra em cena um vírus. Não que ele fosse desconhecido. Os vírus que acometiam plantas foram descobertos em 1876. Retrospectivamente, sabemos que várias epidemias do passado foram causadas por vírus. Em 1881, foi identificado o vírus da febre amarela. Em 1918, último ano da Primeira Guerra Mundial, eclodiu a Gripe Espanhola, uma virose pandêmica. Ela se expandiu no seio de uma grande mortandade fruto de um conflito também global.

Quem denunciou a morte de muitas pessoas por uma doença contagiosa foi a Espanha, país não envolvido no conflito. Daí o nome da gripe. O avião já existia, mas ainda não era usado para voos comerciais. O vírus da febre viajou de navio. A propagação foi lenta, mas ampla. Os locais primeiramente atingidos foram os portos. Depois, valendo-se do trem principalmente, ele chegou às cidades do interior.

O historiador John M. Barry (A grande gripe. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020) acredita que a virose originou-se nos Estados Unidos e se difundiu pelo mundo graças à guerra. Segundo seus cálculos, morreram 50 milhões de pessoas numa população mundial de 1.800 bilhão. Só na cidade do Rio de Janeiro, teriam morrido 35 mil pessoas. Mas são números estimados, já que os censos não tinham precisão naquele tempo. A Gripe Espanhola grassou entre 1918 e 1920 em três ondas. Houve o uso de máscaras e internações, mas não havia ainda respiradores mecânicos e unidades de tratamento intensivo.

Entre a quarta e a quinta pandemias, houve surtos potencialmente globais, como a gripe asiática, a disseminação do vírus HIV, do ebola, da dengue, da zica e da chikungunya. Assim como a gripe, essas doenças parecem ter vindo para ficar em forma epidêmica. Em 2002, eclodiu uma epidemia causada pelo vírus Sars-CoV-1; em 2012, outra pelo vírus Mers-CoV, ambas com potencial pandêmico, mas contidas. Agora, o mundo é invadido pelo Sars-CoV-2. A epidemia brotou na China em fins de 2019. A princípio, entendeu-se que se tratava de uma epidemia localizada. Mas ela se espalhou por todo o hemisfério norte, atingindo Rússia, Europa Ocidental e Estados Unidos. Depois, ganhou a direção sul, chegando à Índia, à África e ao Brasil.

O vírus saiu da natureza devido a contatos promíscuos de humanos com ela. Ganhou o mundo de avião, chegando primeiro às metrópoles internacionais; depois, interiorizou-se. As grandes aglomerações humanas, a pobreza, a velhice, a incompetência dos governantes e a cultura da população facilitam sua propagação. Os vírus mostram como a humanidade é vulnerável a doenças por mais que julgue ter superado o perigo dos microrganismos. A Organização Mundial de Saúde alerta para a ocorrência de futuras pandemias.