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Por Basílio Machado

Depressão e a demagogia do vírus

21.07.2020

Tenho relutado em escrever, falta-me estímulo. Com o isolamento, veio uma espécie de depressão pós Covid.  Andei pensando em discorrer sobre como este vírus está afetando a cabeça das pessoas, mas já tem muita gente falando disso. São três os casos de suicídio de pessoas que conhecia ou que eram próximas. Dívidas, tédio, falta de perspectiva, sensação de abandono, de impotência, enfim. O último era jovem, aparentemente sem motivo para ceifar a própria vida. Esta faceta, para mim, é a mais terrível desta doença, sem querer diminuir o impacto das mortes nos hospitais para as famílias das vítimas.

 

Por outro lado, temos algumas lições a tirar. Em minha opinião, o Brasil sai mais consciente e politizado dessa pandemia, consequentemente, mais exigente com seus políticos. Nunca antes na história do país, com a vênia do Lula, tantas pessoas debateram, divergiram, mostraram suas opiniões e discutiram tão abertamente as entranhas da política e do judiciário nacional. O mesmo deve acontecer daqui a pouco com a política local. Creio que em setembro as redes sociais vão esmiuçar as candidaturas a prefeito e vereador. Bom pra democracia.

Outro ponto que ficou mais claro na cabeça dos cidadãos foi o papel da imprensa na formação da opinião pública. Ficou claro até para os mais leigos que não existe imprensa imparcial em âmbito nacional, tampouco regional. Aquela que não está recebendo dinheiro do governo fala mal e as que estão falam bem, mesmo que de vez em quando deem uma espetada para dissimular sua verve situacionista. Isso ocorre também na esfera local. Há quem diga que não é bem assim. Pura demagogia.

Nossa imprensa é livre sim, para falar o que quiser, mas, via de regra, defende seus próprios interesses, não os da população. Sempre foi desse jeito, só que, graças ao vírus ou à disposição do Presidente em secar os cofres da Rede Globo, suprimindo lhe as verbas publicitárias, as pessoas estão vendo, discutindo e analisando com mais percuciência as notícias e análises da mídia tradicional. Quando não estão convencidas, buscam os blogs e sites mais seletivos, que também têm interesses próprios, mesmo aqueles que usam o guarda-chuva da ciência ou de uma suposta independência intelectual. Resultado: um caldeirão de informação onde o João pode tirar sua própria conclusão.

Aquela máxima do dramaturgo Bertold Breth - “o maior ignorante é o analfabeto político (...) não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, (...) e do remédio dependem das decisões políticas” - nunca esteve tão presente em nossas vidas, graças a Deus. Com a internet e o isolamento social trabalhando juntos, percebo uma transformação formidável advinda do cerne da sociedade, do âmago dos Joões e das Marias. Acenderam o escurinho do cinema, acabaram-se os segredinhos, bem como as atitudes nada republicanas das autoridades, como a do desembargador que enquadrou um guarda municipal em São Paulo. E pensar que geralmente são os guardas que são flagrados pelas lentes mundanas. Ninguém escapa.   

Para finalizar, por teimosia, deixo outra reflexão, também de Bretch: “Do rio que tudo arrasta diz-se que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que os comprimem”.  Até a próxima.

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